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Ana Clézia deixa CD gravado após vender coxinhas em Palmas

Irmãs venderam coxinhas e guaraná para custear disco de estreia; cantora morreu aos 38 anos sem conseguir transplante de fígado.

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Karina Pinheiro
Tocantins · AM
09 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 563 palavras
Microfone em estúdio de gravação ao lado de prato com coxinhas e copo de guaraná.
Irmãs venderam coxinhas e guaraná para custear disco de estreia; cantora morreu aos 38 anos sem cons · Foto: Redação Nortícia

O cheiro de óleo quente da coxinha se misturava ao som do violão ensaiado no fundo da garagem. Em Palmas, Ana Clézia e Laudicéia Gomes transformaram a fome do sonho em alimento para o corpo: vendiam o tira-gosto e o guaraná da Amazônia na feira para pagar as horas de estúdio do primeiro CD autoral.

A trajetória da dupla gospel, que agora entristece o cenário religioso da capital do Tocantins, é um retrato cru do fazer cultural independente no interior do Norte. Não havia verba de patrocinador, nem editais salvadores caindo do céu. Havia o esforço das próprias mãos sujas de farinha. Ana Clézia, a voz líder e a alma do projeto, faleceu na última sexta-feira, aos 38 anos, sete dias após uma internação que culminou em coma. Ela carregava o peso de uma doença hepática que a acompanhava há quinze anos, um obstáculo silencioso que ela tentava driblar com a mesma energia com que segurava o microfone nos cultos.

A irmã, Laudicéia, relembra os dias de luta com uma mistura de dor e orgulho. "Ela sempre sonhou alto, tinha uma visão de águia", conta ela, descrevendo a irmã não apenas como uma cantora, mas como uma visionária que não aceitava o "não" como resposta. Para gravar as faixas que fervilhavam na cabeça, as duas viraram empreendedoras de evento. Montaram bazar de roupas usadas no quintal de casa, serviram galinhada quente em marmitas e tocaram o negócio do guaraná da Amazônia. Cada real lucrado na feira, cheio de suor e barulho de cidade, era uma nota musical garantida na fita da gravação.

A música era o refúgio enquanto o corpo pedia trégua. No cenário evangélico de Palmas, onde a produção muitas vezes depende das grandes estruturas das igrejas, o faz-tudo da dupla chamava atenção. Elas não esperavam o milagre da gravação cair do céu; foram para a rua, com a barraca e o louvor no dicionário. A doença, com o tempo, foi inchando o corpo e diminuindo os passos de Ana. A mulher brincalhona, que dava apelidos criativos a todos na família e vivia com um violão na mão, começou a se recolher. A saída de casa ficou rara. A alegria espontânea dos ensaios deu lugar à quietude do tratamento.

Os médicos apontavam o transplante de fígado como única saída definitiva, mas a fila de espera e a urgência dos órgãos não combinaram com o tempo de Ana. Ela partiu sem a cirurgia, mas deixou pronto o álbum que custou suor e convicção. "Ela viveu o mesmo tempo que uma pessoa transplantada vive, e ela foi feliz", diz Laudicéia, tentando costurar o sentido da tragédia com a linha da gratidão.

O CD autoral, finalmente gravado, é mais do que um conjunto de músicas gospel; é um documento de persistência. Em um estado como o Tocantins, onde a distância entre o sonho e a realidade é medida muitas vezes pela falta de estrutura, a dupla ergueu sua carreira com base na comunidade. A comoção na morte de Ana não é apenas pela perda da voz, mas pelo reconhecimento do caráter de quem não desistiu de pagar o preço do próprio show. Agora, a voz de Ana Clézia permanece viva nas faixas que ela tanto lutou para produzir, um disco que circula de mão em mão entre quem comprou a coxinha e quem acreditou que o talento pode nascer do suor do dia a dia.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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