Alcione abre Semana do Marabaixo com batuque e gengibirra em Macapá
Cantora inicia 4ª edição do ciclo no Parque Residência; festa reúne sete barracões e tradição afro-amapaense.
O cheiro de gengibre ralado cruza com o baque do surdo e invade as narinas antes de a batida começar de verdade. Nos fundos da cozinha comunitária do Parque Residência, Dona Bajó mistura o rizoma recém-ralado com cachaça de papagaio e cravo, preparando a gengibirra que vai circular na garrafa térmica pela multidão. É no meio desse cheiro forte e da umidade do fim de tarde de Macapá que o Marabaixo acontece: não é espetáculo, é rito de corpo inteiro.
A cantora Alcione traz a voz de samba para inaugurar a Semana Estadual do Marabaixo no dia 14 de junho. A "Marrom", referência nacional, vai puxar a abertura da 4ª edição da Central do Ciclo do Marabaixo, um evento que transforma a capital amapaense no maior quintal de cultura negra do Norte. O show é gratuito, sim, mas a entrada que realmente vale é a disposição para o saracoteado e o sapateado no chão de terra.
O Marabaixo é a herança que os negros amapaenses seguram com unhas e dentes — e muito pandeiro. A festa divide-se entre a ladainha, de canto mais lento e sacro, e o samba, onde o corpo desata. Durante a semana, de 14 a 20 de junho, o Parque Residência e o Teatro Municipal Fernando Canto recebem os sete barracões tradicionais, grupos como o Marabaixo do Curiaú e o do Laguinho, que carregam o ritmo nas veias há gerações.
O som da marimba, feito com pedaços de bambu, risca o ar e se encontra com o zumbido do reco-reco. É a orquestra de rua tocando o chamado. Ver os barracões descer é ver a cidade em cores. As saias rodadas das mulheres, os chapéus de palha dos homens, as fitas que balançam no ritmo da dança. Não é coreografia de palco; é a dança do terreiro, onde o joelho flexiona e o pé marca o tempo com a precisão de um relógio de pulso afro.
A presença de Alcione é um reconhecimento. Ela vem com sua autoridade de samba para cantar lado a lado com mestres de cultura que não têm contrato com gravadora, mas têm a história da oralidade guardada na memória. É um encontro de vozes: a potência do rádio com a potência do terreiro, validando a festa que um dia já foi proibida de acontecer.
E tem comida, muita comida. O Amapá se prova na mesa. Na área de gastronomia da festa, o pato no tucupi divide a cuia com a maniçoba, prato que pede paciência no preparo e apetite na hora de comer. A gengibirra, claro, é a bebida oficial para espantar o cansaço e dar coragem para quem vai dançar até o raiar do dia. É uma bebida de luta, feita para acompanhar uma festa que também é de afirmação.
A programação não é só show. Tem oficina de percussão para crianças aprenderem a bater o couro sem machucar a mão, palestra sobre a história da negritude no Amapá e exposição das indumentárias feitas à mão pelas costureiras dos barracões. É um ciclo de formação, onde o Marabaixo vira escola a céu aberto para quem passa na calçada.
Quem quiser fazer parte dessa roda, o endereço é Parque Residência, na entrada do Buritizal. A abertura com Alcione é às 19h, entrada franca. Depois, é deixar o corpo guiado pelo pandeiro e provar um pouco do gengibre que raspa a garganta e cura a alma.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



