Seminário em Belém discute clima e cooperação na Pan-Amazônia
Evento reúne lideranças e gestores no Fórum Landi para debater futuro da floresta e criação do Centro Celso Furtado.
A maré da baía de Guajará sobe e cobre as raízes das mangueiras da Cidade Velha. Em frente à Praça do Carmo, as pedras do Fórum Landi, testemunhas de séculos de extrativismo, agora recebem uma conversa de outro tom: não se trata de negociar a madeira ou o látex, mas de negociar o futuro da floresta em pé. Nesta quinta-feira (11) e sexta-feira (12), o casarão colonial que sobreviveu ao ciclo da borracha é o palco do seminário 'Clima, Inovação e Pan-Amazônia', um ponto de encontro para quem entende que a calha do rio Amazonas não respeita — e não deveria respeitar — as linhas traçadas nos mapas políticos.
Dentro das salas onde já circularam intendentes do império, sentam-se agora gestores públicos de países da América Latina e do Caribe, cientistas e lideranças indígenas. O objetivo é tecer uma agenda comum para o Sul Global, mas o coração do debate é a bioeconomia vista não como abstração de mercado, mas como a manutenção da vida nas aldeias e nas florestas. A bioeconomia que se discute aqui é a do pescador que depende da vazão do rio, do agricultor que planta sem queimar, do povo que guarda a semente crioula e que entende que a floresta não é um estoque de carbono, mas um território de existência.
Um dos marcos previstos para o encontro é a assinatura do acordo que cria o CICEF Amazônia, sediado em Belém. O Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento nasce com a promessa de ser o cérebro de uma nova cooperação científica Sul-Sul. Não é um escritório de burocratas distantes; é a tentativa concreta de colocar a perspectiva da Amazônia no centro das decisões globais sobre clima e financiamento, lembrando que o desenvolvimento, na visão de Celso Furtado, exige soberania para escolher o próprio caminho, sem copiar modelos que não cabem na tropicalidade.
A programação começa no Landi, mas percorre a cidade até um hotel na Avenida Presidente Vargas. No trajeto, o calor de Belém, que faz o suor escorrer pela testa, lembra a urgência. Discute-se justiça ambiental, transição ecológica e, principalmente, como garantir que a riqueza gerada pela biodiversidade volte para quem a protege. As lideranças indígenas presentes trazem para a mesa o conceito de bem-viver — um modo de existência que o capitalismo tardio tenta traduzir em números e metas, mas que só se entende de fato escutando o território e respeitando o consentimento livre, prévio e informado dos povos originários.
Ao fim dos dois dias, quando as luzes do Fórum se apagarem e a maré voltar a baixar na baía, o que ficará não é apenas o documento assinado ou o anúncio do novo centro. O que fica é a certeza, necessária, de que a Pan-Amazônia se constrói na articulação difícil entre o saber acadêmico e o saber da floresta, ambos indispensáveis para frear o desmonte climático. O rio continua correndo para o mar, como há milênios, mas agora, espera-se, com mais vozes defendendo seu curso.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
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