Filhotes de gato-mourisco são resgatados e devolvidos à mãe em Roraima
Brigada e morador devolvem filhotes à mãe no Baixo Rio Branco; espécie é rara e ameaçada de extinção.
O rio Jauaperi faz a curva suave antes de encontrar o Branco, e é ali, na vila de Santa Maria do Boiaçu, que a mata encosta nas casas sem pedir licença. Foi nessa fronteira, numa tarde de sol forte, que um morador encontrou o sinal inesperado na beira de uma lagoa: dois corpos pequenos, de pelo escuro e listrado, tremendo sobre a folhagem seca. Eles estavam sozinhos, e o silêncio à volta deles pesava mais que o calor.
O homem viu a fêmea fugir assustada para o fundo da mata e, diante daquelas criaturas indefesas, o primeiro impulso foi o do medo e da confusão. Para quem não tem o olhar treinado na biodiversidade da floresta, um gato-mourisco filhote pode ser confundido com uma onça-pintada magra, especialmente pela coloração que imita as sombras do sub-bosque. Sem saber que se tratava de uma espécie rara e tímida, ele recolheu os filhotes e os levou para dentro de casa, longe da mãe que rondava invisível.
A notícia do resgate chegou rápido a Maciel Moraes, líder da Brigada Boiaçu. A brigada, que normalmente combate o fogo que devora o território, teve agora a missão de consertar um elo que o medo havia quebrado. A orientação foi imediata: a natureza não espera. Enquanto os filhotes eram alimentados com leite na mamadeira, apenas para manter a força, o plano era montado para devolvê-los ao local exato onde haviam sido tirados.
No domingo, o retorno foi uma caminhada em silêncio. O caminho até a beira da lagoa foi trilhado com a certeza de que a mãe, a fêmea vista dias antes, estaria por perto, rondando o cheiro da prole. O gato-mourisco, conhecido cientificamente como Herpailurus yagouaroundi, é um felino solitário, de hábitos terrestres, que precisa da floresta em pé para sobreviver. Ele é um indicador da saúde daquele ecossistema do Baixo Rio Branco.
Ao deixarem os filhotes no chão, a equipe se afastou. Não houve espetáculo, nem fotos de longa exposição. Houve apenas o respeito pelo tempo da floresta. A fêmea, que já sentia o cheiro dos pequenos, retornou. O encontro foi rápido, um movimento de focinho e pata, e em seguida o grupo desapareceu na densidade da vegetação, reconstituindo a família que o acaso — e a boa intenção desinformada — haviam separado.
Em Santa Maria do Boiaçu, o dia terminou com o rio correndo igual, mas com um conhecimento novo instalado na comunidade. A floresta guarda suas vidas com um cuidado que, às vezes, a gente precisa apenas aprender a não atrapalhar.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
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