Luzes em serra de Xambioá intrigam moradores e acendem curiosidade na região
Programador grava luzes intermitentes em zona rural; Força Aérea monitora espaço aéreo sem conclusão até o momento.
Anderson Oliveira parou de digitar o código na tela do computador e levantou da cadeira. Era noite de 28 de maio, uma quarta-feira comum no calendário de Xambioá, no extremo norte do Tocantins. Ele estava na varanda de casa, na zona urbana, um ponto que oferece uma vista privilegiada para o limite onde o asfalto termina e a mata começa. Do outro lado, erguia-se a serra que contorna a cidade. Naquela noite, porém, o perfil escuro da montanha não estava silencioso. Ele piscava.
O que Anderson viu não foi um raio nem o reflexo de um carro na BR-153. Eram pontos de luz intensa, acendendo e apagando em sequência rápida, perdidos na vegetação da zona rural. O programador, acostumado a lidar com variáveis previsíveis, sentiu-se diante de um erro de sistema. Não havia lógica aparente. Ele correu para pegar o celular, apertou o gravar e segurou a mão firme. O resultado foi um vídeo de pouco mais de um minuto que, dias depois, colocaria a pequena cidade de Xambioá no mapa das discussões sobre o inexplicável.
Xambioá tem quase 20 mil habitantes e uma rotina calma, marcada pelo calor do cerrado e pelo movimento do agronegócio nas estradas vicinais. Quando o vídeo começou a circular nos grupos de WhatsApp da cidade, o assunto mudou do preço da carne para as luzes na serra. No mercado, na padaria e na parada de ônibus, a pergunta era a mesma: "Você viu o vídeo da Anderson?". A curiosidade era inocente, mas insistente. Moradores de bairros mais distantes confirmaram que também tinham notado um brilho estranho no céu naquela semana, mas ninguém tinha registrado.
A administração municipal não ignorou o caso. A Prefeitura de Xambioá informou que tomou conhecimento do registro através das redes sociais e iniciou um levantamento interno. Não há torres de energia alta naquela parte específica da serra, o que descarta curto-circuito de transmissão por lá. A hipótese de um balão meteorológico ou de lanternas de festa junina foi levantada pelos próprios internautas, mas a intensidade e a duração das luzes no vídeo não combinam com a subida lenta de um balão de papel.
O radar, porém, é cego para o que não tem transponder. A Força Aérea Brasileira (FAB), responsável pelo monitoramento do espaço aéreo na região, atuou através do Cindacta. O cruzamento de dados com os voos comerciais e planadores daquela noite não apontou nenhuma aeronave irregular ou não identificada. O espaço aéreo estava limpo no papel, mesmo que as imagens dissessem o contrário. Para a FAB, sem detecção no radar, não há risco para a navegação, e o foco permanece na segurança do tráfego aéreo.
Um pesquisador de fenômenos anômalos, que analisa casos na região Norte, pediu anonimato mas avaliou as imagens. Ele sugere cautela. Segundo o especialista, câmeras de celular modernas, ao tentarem focar no escuro, podem criar artefatos digitais — aqueles pontos brilhantes que surgem do nada. Porém, a consistência do comportamento das luzes no vídeo de Anderson chamou a atenção. "Parece uma fonte emissora, não um reflexo", avaliou. A recomendação técnica é que, em uma nova ocorrência, alguém use binóculos ou uma câmera com tripé para estabilizar e descartar tremores de mão.
A serra em questão faz parte do ecossistema local e é uma referência geográfica para os moradores. Ela sempre esteve lá, um gigante de pedra e árvores. O mistério das luzes trouxe uma nova camada de atenção para um território que a maioria da população só olha de longe. Enquanto a explicação científica não aparece, o fenômeno entra para o folclore local da semana. Não há pânico, mas há um olhar mais atento para o céu.
A prefeitura orientou que, caso qualquer outro morador visualize algo semelhante, acione a Defesa Civil pelo número 199. O importante é registrar o horário, a direção e a duração do evento. Subir a serra à noite para investigar por conta própria é desaconselhado; o terreno é íngreme e a vegetação densa oferece riscos de segurança, sem contar a presença de animais silvestres.
Por enquanto, as luzes se apagaram tanto na serra quanto nos trendings do dia. Anderson voltou a programar, mas mantém o vídeo salvo na galeria. Em Xambioá, a noite voltou ao seu normal silêncio, mas a pergunta "o que era aquilo?" continua flutuando no ar, esperando uma resposta que nem a tecnologia nem a ciência deram até agora.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



