Jovem deixa UTI no Acre e usa celular para digitar mensagem à família
Após 25 dias internada em estado grave, Raissa, de 21 anos, escreveu à irmã que queria sair do hospital.
Raissa Silva de Souza, 21 anos, mexe os dedos devagar na tela de um celular emprestado na enfermaria do Pronto-Socorro de Rio Branco. É um gesto ainda trôpego, ensaiado com uma paciência que o corpo dela está reaprendendo, para traçar as letras que a boca, interditada pela traqueostomia, não consegue formar. O quarto é claro, mas a luz para ela parece recente, quase assustadora.
Ela escreveu ali, naquela tarde de domingo, a primeira frase clara depois de vinte e cinco dias mergulhada no sono profundo e barulhento da Unidade de Terapia Intensiva. "Quero ir embora", digitou. Não era um grito de desespero, nem um delírio de dor, mas a vontade concreta de sair da cama, de largar os tubos, de ver o céu que não é o forro branco de uma sala de emergência. Era o desejo de voltar à vida que ela levava na BR-364, pedalando até o trabalho ou para casa, com o vento no rosto que o asfalto do Acre oferece.
A vida dela parou no dia 12 de maio, na altura da entrada do Loteamento Santo Afonso. Uma carreta, pesada e rápida, pegou a bicicleta de Raissa de surpresa. O metal encontrou o corpo frágil, e o mundo desabou para a família e para a moça que, até então, tinha a frente toda pela idade. O impacto foi brutal o suficiente para mantê-la sedada, à mercê de aparelhos que respiravam por ela, por quase um mês inteiro. Foram trinta noites em que a irmã, Adriana, e os pais viram o tempo se arrastar entre corredores de hospital e orações sussurradas.
Durante essas semanas, o relógio da família era medido em terços rezados e portas de corredor se fechando. A fé, em momentos como esse, não é um milagre estrondoso que cai do céu; é a resistência de ficar do lado da cama, segurando a mão fria, esperando o pézinho se mexer, esperando a mão fechar a nossa. E a resposta começou a vir aos poucos, na retirada lenta dos remédios que a mantinham dormindo, na abertura dos olhos que voltaram a reconhecer rostos.
Agora, os sedativos sumiram de vez. Raissa compreende o que dizem a ela, acena com a cabeça, e, quando a voz falha, recorre ao smartphone. Foi uma amiga da família, solidária e intuitiva, que teve a ideia de deixar o aparelho ao alcance da mão. "Uma colega nossa que estava com ela deu um celular para ela digitar. As palavras que ela escreveu eram que ela quer ir embora", contou Adriana, aliviada, ao ver que a consciência da irmã estava totalmente preservada.
Há uma teologia simples e bonita nisso. Deus não está necessariamente no peso da carreta que bateu, mas está na determinação dessa garota de se fazer entender. Está na tela iluminada, na paciência de quem lê o que ela escreve dedo por dedo, na transferência da UTI para a enfermaria, que é o sinal de que o pior já passou. O sofrimento deixa de ser um mistério aterrorizante para virar um desafio de cada dia: acordar, mover os dedos, digitar "quero ir embora".
O quartinho da enfermaria agora substitui a urgência da terapia intensiva. Não há mais o apito constante dos monitores que avisa perigo iminente, apenas o silêncio da cura e o rumor de corredores onde outros também lutam suas próprias batalhas. Raissa está acordada, presente, reclamando do tempo de internação, querendo sair. É o sinal de que a vida pulsa de novo, forte e teimosa, sob o lençol branco.
O celular desliza um pouco para o lado da cama. Raissa descansa a mão cansada, mas satisfeita por ter sido entendida. Lá fora, o sol de Rio Branco começa a baixar, entrando pela janela e iluminando o cantinho onde a esperança tomou a forma de uma mensagem digitada.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



