Acre desperdiça 27 piscinas olímpicas de água por dia, aponta estudo
Estado tem 56% de perdas na distribuição, índice superior à média nacional; Rio Branco está no top 10 do desperdício no país.
Dona Francisca das Chagas, 56 anos, mora há duas décadas na Rua Rio Grande do Sul, no bairro Bosque, em Rio Branco. Todos os dias, ela passa por uma vala na esquina da avenida Getúlio Vargas onde água limpa corre, sem destino, há semanas. "É dinheiro jogado fora, é água que falta na torneira da gente lá em cima", conta ela, enquanto aponta para o buraco na calçada que se tornou um lamaçal permanente.
A intuição de Dona Francisca tem números para apoiar. O Acre desperdiça, diariamente, o equivalente a 27 piscinas olímpicas ou 90.983 caixas d'água de 750 litros. O dado é do estudo mais recente do Instituto Trata Brasil, divulgado na última terça-feira (2), em parceria com a consultoria GO Associados. No estado, o índice de perdas na distribuição de água chega a 56,48%. Isso significa que, para cada 100 litros tratados, mais da metade vira lama ou evapora antes de chegar ao copo do consumidor.
O índice acreano é bem acima da média nacional, que fica em 39,53%. Em Rio Branco, a situação é ainda mais crítica para os padrões de metas federais: a capital perde 53,35% de toda a água produzida. Esse número coloca Rio Branco entre as dez cidades com piores índices de desperdício do Brasil. Segundo o levantamento, cada ligação de água na capital desperdiça, em média, 951 litros diários.
Se o estado conseguisse reduzir esse desperdício para a meta de 25% estipulada pelo Ministério das Cidades para 2033, seria possível garantir abastecimento completo para mais de 154 mil pessoas. "A gente vê anúncio de racionamento quando faz um pouco de calor, mas o problema não é falta de água na natureza, é falta de cuidado com a tubulação", critica o comerciante José Raimundo Silva, 42, dono de uma padaria no Conjunto Novo Horizonte. Ele diz que a baixa pressão atrapalha o funcionamento da máquina de lavar louças do estabelecimento.
A responsável pelo abastecimento é a Serviço de Água e Esgoto do Estado do Acre (Saneacre). Procurada, a companhia não retornou até o fechamento desta matéria para comentar os dados do Trata Brasil ou apresentar um plano de ação para reduzir as perdas. O histórico de vazamentos visíveis nas ruas da capital, entretanto, é reclamado rotineiramente pelos moradores no aplicativo municipal de serviços.
Enquanto a meta de 2033 dista quase dez anos, o bolso do acreano paga a conta. O desperdício representa custos de tratamento e energia que entram na tarifa cobrada na conta de água, mesmo que o líquido não chegue à casa do cliente.
Moradores que identificam vazamentos na rede pública ou problemas na distribuição podem registrar reclamações diretamente na Saneacre. Na capital, os atendimentos podem ser feitos presencialmente na sede, na Avenida Ceará, ou pelo telefone 0800 064 2020. Denúncias também podem ser registradas na ouvidoria digital do próprio órgão.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



