Suspeito morre em confronto após resgate de mulher em cárcere privado há 15 anos no Amapá
Polícia Militar foi recebida a tiros na comunidade Rio Fugido; vítima relatou tortura sistemática com facão.
A Polícia Militar do Amapá deflagrou na manhã desta quinta-feira (4) uma ação de resgate na comunidade ribeirinha Rio Fugido, zona rural de Macapá, que resultou na morte de V.P.C., de 34 anos. O suspeito, que mantinha a companheira e dois filhos em regime de cárcere privado há aproximadamente 15 anos, reagiu a tiros contra a guarnição policial e foi alvejado em consequência da reação dos agentes.
Segundo o registro de ocorrência, a operação foi deflagrada após equipe médica da Unidade Básica de Saúde da região notificar a corporação sobre lesões corporais graves em uma paciente. Os médicos constataram que a vítima, M.V.F., de 31 anos, apresentava múltiplos ferimentos cortantes e hematomas em diversas partes do corpo, incompatíveis com acidentes domésticos, o que levantou a suspeita de tortura prolongada.
Ao chegarem à residência, localizada em área de difícil acesso às margens do igarapé, os policiais militares foram recebidos com disparos de arma de fogo. A guarnição, integrante do Batalhão de Policiamento Rural (BPRural), efetuou disparos de defesa, atingindo V.P.C. O socorro médico foi acionado imediatamente, mas o suspeito não resistiu aos ferimentos e veio a óbito no local. O caso será registrado como Auto de Resistência, seguindo os procedimentos padrão para mortes decorrentes de intervenção policial.
Em depoimento prestado à autoridade policial, M.V.F. relatou que o relacionamento com o agressor começou quando ela tinha 14 anos. A vítima descreveu um ciclo de isolamento progressivo, no qual o suspeito a proibia de manter contato com familiares ou sair da residência. Segundo o relato, as agressões físicas começaram após o nascimento do primeiro filho e escalaram ao longo dos anos, incluindo ameaças de morte sob arma de fogo e tortura com um facão, que deixou cicatrizes permanentes em suas costas e braços.
Os dois filhos do casal, com idades entre 8 e 12 anos, também foram resgatados durante a operação. Eles foram encaminhados ao Conselho Tutelar de Macapá e posteriormente acolhidos pela rede de proteção social do município. A Secretaria de Estado da Assistência Social (Seas) informou que as crianças passarão por avaliação psicológica para identificar traumas decorrentes da convivência com a violência.
O inquérito policial, instaurado na 1ª Delegacia de Polícia de Macapá, vai apurar os crimes de cárcere privado (Art. 148 do Código Penal), tortura e lesões corporais de natureza grave. Embora o principal indiciado esteja morto, o procedimento policial é necessário para a formalização dos fatos e para levantar se houve conivência de terceiros na manutenção do isolamento da família na comunidade. O corpo de V.P.C. foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) para necropsia, que deve confirmar a causa da morte e a trajetória dos projéteis.
Diego Câmara
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
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