PF investiga fraude em financiamentos rurais no Tocantins e bloqueia R$ 141,7 mi
Operação apura inserção de dados falsos em sistema bancário para liberação de créditos milionários; oito pessoas são alvos e bens foram bloqueados.
A Polícia Federal deflagrou na manhã desta terça-feira (9) a Operação Terra Falsa com o cumprimento de três mandados de busca e apreensão em pontos estratégicos de Palmas. A ação criminal visa desarticular um esquema supostamente comandado por um ex-funcionário bancário para fraudar financiamentos rurais no Tocantins, resultando em prejuízo inicial estimado em R$ 141,7 milhões ao sistema financeiro. As ordens judiciais foram expedidas pela 4ª Vara Federal Criminal da Seção Judiciária do Tocantins, que também decretou o bloqueio de bens dos investigados.
Segundo apurou a PF, o mecanismo da fraude envolvia a inserção de dados falsos no sistema interno da instituição financeira. O ex-funcionário, que tinha credenciais de gerência, alterava a classificação de imóveis rurais e a capacidade produtiva de glebas para enquadrá-las em linhas de crédito com taxas subsidiadas e valores mais altos. Os contratos eram formalizados em nome de "laranjas" — pessoas sem vínculo real com a atividade agrícola — que recebiam os recursos e repassavam a maior parte aos mentores do esquema.
Oito pessoas são alvos da investigação. Entre elas, estão o ex-bancário, identificado pelas iniciais A.S., 42 anos, e sete interpostas pessoas. A Justiça Federal determinou o sequestro e o bloqueio de bens em todo o território nacional até o limite do prejuízo apurado. A medida atingiu fazendas no sul do Tocantins, caminhonetes de luxo, contas bancárias e aplicações financeiras. A magistrada entendeu que o bloqueio é necessário para garantir a futura execução penal e a reparação do dano.
As investigações tiveram início após um cruzamento de dados da Controladoria-Geral da União (CGU) com o banco, que detectou anomalias em contratos firmados entre 2022 e 2025. Os peritos constataram que, em um dos casos, uma área de preservação permanente foi cadastrada como área de cultivo de soja para liberar um financiamento de R$ 4 milhões. O dinheiro foi sacado em poucos dias e transferido para contas de empresas de fachada.
Na fase atual, a PF busca provas documentais e digitais que comprovem o nexo entre os investigados e a movimentação financeira suspeita. Os policiais recolheram servidores, hard disks e contratos físicos nos endereços alvejados. A delegacia responsável pelo caso informou que a investigação deve crescer com a análise do material apreendido, podendo haver novas prisões preventivas nos próximos dias.
O Tocantins é um dos maiores receptores de crédito rural da região Norte, impulsionado pela expansão da fronteira agrícola no norte do estado. A facilitação desses crimes, segundo especialistas em segurança econômica, ocorre devido à distância física entre as agências bancárias e as propriedades fiscalizadas, dificultando a vistoria "in loco" antes da liberação dos recursos. A Operação Terra Falsa busca justamente coibir essa prática, que encarece o crédito para o produtor honesto e danifica a imagem do estado no mercado financeiro.
Procurada, a defesa de A.S. afirmou, por meio de nota, que o ex-funcionário atuou dentro das normas bancárias e que as irregularidades seriam falhas operacionais da instituição, não fraudes deliberadas. As defesas dos outros sete investigados não foram localizadas até o fechamento desta matéria, já que a identidade civil deles ainda não foi divulgada integralmente nos autos públicos.
O caso expõe uma vulnerabilidade nos sistemas de controle do crédito rural. O Ministério Público Federal (MPF) acompanhou a operação e deve oferecer a denúncia formal por crimes contra o sistema financeiro nacional, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Se condenados, os investigados podem pegar penas que variam de quatro a dez anos de reclusão, além do ressarcimento integral dos valores desviados.
O inquérito tramita sob segredo de justiça na 4ª Vara Federal Criminal de Palmas. A próxima etapa processual é a apresentação da defesa prévia após o recebimento da denúncia.
Diego Câmara
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
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